MARINA-CAMPOS 2 – Dificuldades são bem maiores do que sugere o entusiasmo da solenidade

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Leia primeiro post anterior – MARINA-CAMPOS 1 – Líder da Rede acerta ao acusar ‘chavismo’ do PT e põe fim ao esforço de Lula para eliminar uma terceira força da disputa de 2014

O governador Eduardo Campos (PSB-PE) tem, como afirmo no texto 1, bom trânsito na imprensa e no empresariado. O mesmo se pode dizer de Marina. Ele conta com uma estrutura partidária sólida; ela, com uma fatia muito entusiasmada do eleitorado que dificilmente se deixaria atrair pelo PSB não fosse essa composição. Os partidários da Rede estão ressentidos. Atribuem a maquinações do Planalto, o que nem me parece provável, a rejeição ao registro da Rede. O governador sabe que o petismo está criando dificuldades as mais diversas para que se organize. É, por exemplo, o sujeito oculto a ditar o texto dos irmãos Gomes (Cid e Ciro), do Ceará, que agora tratam como inimigo o ex-aliado. Marina está furiosa, e com razão, com o processo de demonização de que está sendo vítima nas redes sociais e naquela área suja, financiada por estatais e por gestões petistas, que se confunde com a imprensa. A máquina fascistoide do PT não perdoa adversários nem ex-aliados. Se preciso, atira para matar a reputação de seus alvos. Tudo isso conferiu à solenidade da tarde deste sábado um certo caráter, não sem justeza, de resistência democrática.

Mas as dificuldades para que essa união seja bem-sucedida, convém a gente não se enganar, são gigantescas. A primeira e mais evidente delas diz respeito às parcerias para o horário eleitoral gratuito. Em 2010, é verdade, mesmo sem a tal “Rede” formada, Marina conseguiu 20 milhões de votos no primeiro turno com apenas alguns segundos na TV. Desta feita, em tese ao menos, está em situação melhor, mesmo sem partido: o espírito das ruas lhe é favorável ela tem sua própria legenda. O PSB, igualmente tem uma máquina considerável. Mas essa aliança que agora se faz vai se coligar com quem?

Vamos ver como ficará o PSB ao fim do indecoroso troca-troca partidário que está em curso. Marina filia-se pro-tempore ao partido, mas não agrega tempo de TV. Seis deputados do PSB se mudaram para o tal PROS, a legenda-ônibus do governismo (quatro deles, do Ceará, acompanham os irmãos Gomes). Quantos o partido de Campos ganhará? A legislação não abre janela para a migração para partidos já formados — o migrante pode alegar incompatibilidade com os caminhos adotados pela legenda, mas é terreno pedregoso. O risco da perda de mandato existe. Sem mudança nenhuma, o PSB teria coisa de 1min15s. Campos tem dito a interlocutores que precisaria fazer uma aliança que contasse com pelos menos 100 deputados federais, o que lhe daria 3 minutos no horário eleitoral. Hoje, essa tarefa parece impossível. Isso implicaria atrair mais ou menos uns 80. Não vejo onde há legenda para tantos parlamentares.

Durante uma parte da trajetória, o PSD de Gilberto Kassab caminhou em parceria com o PSB. A relação é cordial e coisa e tal. Mas não há a menos possibilidade de aquele partido fechar com Campos. Está 100% compromissado com a candidatura de Dilma Rousseff. O ex-prefeito de São Paulo só toma decisões importantes depois de conversar com a presidente. É uma espécie de PMDB menor e mais fiel. O Solidariedade, do deputado Paulinho da Força, a menos que faça da traição a sua divisa, está compromissado com o senador Aécio Neves (PSDB-MG), que não mediu esforços para tornar viável o partido — e todos sabem disso. Há uma possibilidade de Aliança Campos-Marina contar com o apoio do PPS, aguerrido, sim, mas pequeno. Ganharia alguns segundos a mais de TV.

É claro que a união de agora dá um ânimo novo ao PSB, mas é certo que o governo não ficará dormindo no ponto. Tentará, por todos os meios, matar a candidatura de Campos (Marina) de inanição televisiva.

As alianças
O governador Eduardo Campos já avançou bastante nas alianças regionais. Em quase todos os estados, esses partidos são, na geografia convencional, mais “conservadores” do que o próprio PSB. Nesse caso, o que fará Marina Silva? Como atuará a Rede? Essa pergunta lhe foi feita na coletiva deste sábado. Marina falou que a aliança conserva a independência dos partidos. Em tese, parece coisa tranquila. Na prática, pode ser complicado. Os dois apareceriam, por exemplo, juntos na campanha nacional, mas separados nas regionais?

Será preciso ter habilidade, também, para distribuir as vagas na disputa proporcional. Os “marineiros” exigirão a sua cota em cada estado — para que possam depois migrar para a sua real legenda. A chance de haver curto-circuito nessa relação é grande. Em São Paulo, o PSB, caso não mude de rota, vai se aliar ao governador Geraldo Alckmin. Há até a chance de ter um lugar de vice na chapa. Os marino-peessebisas do estado vão aderir à campanha do seu partido oficial ou terão licença até para combater a candidatura e aderir a uma outra se acharem melhor? Embora o PSD vá apoiar Dilma Rousseff na disputa nacional, em Santa Catarina, o partido ficará com Eduardo Campos. O provável candidato da legenda ao governo do estado é o deputado Paulo Bornhausen, filho de Jorge, ex-presidente do ex-PFL. O que fariam os marineiros?

Notem: a aliança anunciada neste sábado, como já escrevi, tem o charme da “resistência”, mas, por isso mesmo, tem a marca do artificialismo. Não será nada fácil torná-la operacional no dia a dia da campanha.

(Por Reinaldo Azevedo)