Transformação do banqueiro Daniel Dantas em bode expiatório foi decisão política do governo Lula, diz jornalista que investigou caso a fundo

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Daniel Dantas: demonização proposital, segundo Raimundo Pereira

A transformação do banqueiro Daniel Dantas em bode expiatório do processo de privatização das telecomunicações foi uma decisão política do governo Lula, e o inquérito policial conduzido pelo delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz, que o incriminou, é mal-intencionado e repleto de falhas.

As afirmações são de Raimundo Rodrigues Pereira, um dos mais experientes e respeitados jornalistas em atividade no país, autor do livroO Escândalo Daniel Dantas – Duas Investigações (Editora Manifesto, 2010).

Folha de S. Paulo de sexta-feira, 10, publicou quase em página inteira uma resenha do livro, feita pelo jornalista Frederico Vasconcellos. Segundo o texto de Vasconcellos, que tem focado seu trabalho na cobertura do Judiciário, Raimundo Pereira “vê uma trama política que desviou o foco das privatizações tucanas e sustou uma investigação sobre Dantas e o mensalão petista”.

Citando trecho do livro, Vasconcellos escreve, a certa altura: “O método de Queiroz foi ‘grampear conversas e mobilizar um exército de arapongas e analistas precários para tirar delas fragmentos que o mau jornalismo transformaria em escândalo’”.

O delegado Protógenes foi condenado a 3 anos e 4 meses de cadeia no dia 10 do mês passado pelo juiz Ali Mazloum, da 7ª Vara Criminal da Justiça Federal de São Paulo, por vazar informações e forjar provas enquanto chefiava a Operação Satiagraha, que condenou Daniel Dantas a 10 anos de prisão por corrupção ativa. A pena foi transformada em prestação de serviços à comunidade e da sentença ainda cabem recursos.

Ouvido a respeito do livro pela Folha, o delegado disse tratar-se de “um livro inidôneo”, e, levianamente, afirma: “Não tenho como provar, eu ouvi dizer que esse livro foi financiado”.

Raimundo, reconhece até quem dele diverge ideologicamente, é de uma retidão absoluta — recusou uma carreira na grande mídia que o teria levado ao topo para dedicar décadas à imprensa alternativa, enfrentando sempre dificuldades financeiras e políticas. Naturalmente, nega ter recebido qualquer pagamento de Dantas.

Pela importância do tema, transcrevo a seguir, com pequenos cortes que abordam outros assuntos, a longa e contundente entrevista que Raimundo Pereira concedeu recentemente ao site Consultor Jurídico, sob o título abaixo:

 

Raimundo Rodrigues Pereira durante a entrevista (Foto:Jeferson Heroico)

SATIAGRAHA FOI TRABALHO MALFEITO E DIRECIONADO

Por Maurício Cardoso

Perguntado se escreveu o livro O Escândalo Daniel Dantas – Duas Investigações em defesa do banqueiro mais acusado do Brasil, o jornalista Raimundo Pereira Rodrigues, autor da obra, diz que não, que escreveu o livro para defender uma tese.

E sua tese é de que a transformação de Daniel Dantas em bode expiatório do processo de privatização das telecomunicações foi uma decisão política do governo Lula.

Se era esse o objetivo, o governo teve êxito total: a telefonia privatizada vai muito bem, obrigado, e Daniel Dantas está fora do mercado de telecomunicações. Em seu livro, no entanto — e é isso que o torna indispensável para quem se interessa pela Justiça e pelo Direito —, Raimundo Pereira disseca a participação da polícia, do Ministério Público e da Justiça nessa campanha de demonização de um cidadão.

Sobra também para os homens de negócio e de finanças e sobretudo para a imprensa. E em geral, pode-se aplicar a cada um deles o veredito que o autor faz do trabalho do delegado Protógenes Queiroz, o homem que assumiu de peito aberto a cruzada de destruir Daniel Dantas: “A opinião sobre o trabalho de Queiroz é a pior possível”.

http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/tag/raimundo-rodrigues-pereira/