Economista dá uma “aula de economia” a Tico Santa Cruz

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Economista dá uma “aula de economia” em resposta a Tico Santa Cruz no Facebook – (Rodrigo Tolotti Umpieres – 05/08/15)
Não é de agora que as redes sociais estão dominadas pela discussão política/econômica. No Brasil criou-se um clima de guerra entre oposições, onde apenas os extremos são considerados. E na última semana um novo debate chamou atenção no Facebook, entre a economista Renata Barreto e o vocalista da banda Detonautas, Tico Santa Cruz.
Após ele afirmar que não acredita que o Brasil está vivendo em uma crise muito grave como está sendo noticiado, Barreto decidiu enviar um texto para o cantor para explicar a real situação do País. A economista comenta sobre a queda do PIB (Produto Interno Bruto), disparada da inflação e dos juros, além da piora da indústria e da disputa política.
A postagem na página de Tico Santa Cruz já contabiliza mais de 21 mil curtidas e resultou em uma breve resposta do cantor, que afirmou não se sentir intimidado e que não acredita ter a obrigação de continuar o debate, sendo que sua página é para expor suas próprias opiniões e não “verdades absolutas”. Confira abaixo o texto na íntegra da economista, ou confira o post no Facebook aqui:
Grande pensador contemporâneo, Tico Santa Cruz. Ontem você postou um texto sobre a crise, com maluquices tão absurdas que resolvi te enviar uma resposta, não só como economista, mas como cidadã brasileira consciente.
Você está em dúvida se existe realmente uma crise, já que apesar de estarmos passando um momento de retração da economia, tivemos 10 anos positivos, com pessoas tendo acesso à carros, imóveis e etc. Tiquinho, meu bem, a tia te explica: Primeiro que tínhamos uma farra de preços de commodities e nunca incentivamos a indústria de forma consistente, correndo o risco de essa farra acabar e a receita cair, não tendo outra fonte substancial para segurar o crescimento. Segundo que, tudo que as pessoas compraram nesses últimos anos foi às custas de redução de juros drástica e imatura, que incentivou o crédito demasiadamente, além de preços administrados controlados artificialmente, assim como redução de impostos para diversos bens de consumo. Os gastos públicos só aumentaram sem responsabilidade nenhuma. Meta de superávit? Inflação controlada? Responsabilidade fiscal? Pra que?? Com essa política populista, ganhamos uma belíssima conta para pagar no futuro. E esse futuro chegou.
Sua lógica me surpreende. Diz que houve demissões, em especial no setor automotivo, o mesmo que teve um boom nos últimos anos, que contratou muita gente para dar conta do alto índice de consumo que o povo brasileiro adotou. “Será que esses setores, que lucraram tanto, não podem manter seus funcionários neste momento de crise ou será que quebram? Pergunta de leigo, pois não sou economista”. Não precisa ser economista querido, precisa ter o mínimo de massa encefálica, coisa que lhe falta, aparentemente, tanto quanto uma boa música. Se a empresa não faz nada num momento de crise, é obvio que ela quebra! E se ela quebra, não tem emprego para ninguém! Entendeu? Mas você acha que o problema é o sistema capitalista opressor e seus lucros não é mesmo? Comovente.
A minha parte favorita é quando você diz que muitos economistas preveem aumento de juros, de taxas e que NADA efetivamente aconteceu. Aí eu levo minhas mãos à cabeça e fico imaginando que espécie de sinapses você faz com os neurônios que lhe sobraram. A taxa de juros básica está em quase em 14%; a inflação está cada vez maior (projetado para o final do ano é de mais de 9%, e a de junho foi a maior para o mês em 19 anos); houve aumento de impostos; os preços administrados foram corrigidos (energia, gasolina, etc.); o dólar está no maior patamar em 12 anos (que por acaso pressiona ainda mais a inflação) e o endividamento das famílias está quase em 50% com o incentivo do crédito nas épocas que você chama de boa fase econômica. Ah, não se esqueça que ainda houve corte das metas fiscais; o desemprego cresceu e deve crescer ainda mais; o PIB está em retração, estimando-se 1.70% de crescimento negativo em 2015 (dois anos seguidos de retração não acontece no Brasil desde os anos 30); corte de verbas na educação; demissões nos setores de indústria, infraestrutura, comércio e serviços; escândalos absurdos em grandes companhias do país como a Petrobras e Odebrecht; recuo na renda real do trabalhador; mudanças em direitos trabalhistas; corte de 40% no orçamento do PAC e uma enorme crise de credibilidade, que apesar de intangível (procure no dicionário), é responsável pela escassez de crédito e diminuição drástica de investimentos no país. Com a crise política, essa credibilidade fica ainda mais afetada.
Sua sensação é de que a crise é apenas um sentimento plantado por pessoas que queiram ver o país desestabilizado financeiramente e emocionalmente e que isso sim seria o responsável por nos levar à verdadeira crise, pois o medo desta é o que realmente faz que ela aconteça. Agora o problema é psicológico? Quanta criatividade para uma teoria da conspiração. Que gente é essa que está interessada numa grave crise? Quem quer ver o país perdendo valor, retraindo, perdendo cada vez mais credibilidade, empregos, poder de compra? Que setores são esses que você fala que ganham com crises e podem “voltar à cena??”. Que raio de pessoas são essas que ganham com o medo? E mais, como eles conseguem dominar todos os canais de notícias, inclusive internacionais? Que brilhante conclusão!!!
Te digo com absoluta certeza que a única coisa que acertou neste mar de asneiras foi dizer que poderia estar completamente errado em suas considerações. Não só está MUITO errado nesta avaliação econômica non sense, quanto em lógica e tudo que conheço por pensamento racional. Você próprio diz que é preciso reconhecer os problemas para poder saná-los, mas que estes ainda não aconteceram. Se a situação que temos hoje ainda não é uma crise preocupante para você e o que vivemos é apenas uma especulação, pode aposentar seu diploma de pseudo intelectual. Nem isso dá mais pra fazer.
Ser realista nesta joça de país virou ser pessimista, que virou ser antipatriótico, que virou ser coxinha, que virou “alguém tem interesse nessa tal de crise”. Se o pior cego é aquele que não quer ver, Tico, você precisa de um cão guia.
Um grande abraço (com tapinhas nas costas), da economista, brasileira e sem interesse algum no medo de outrem,
Renata Barreto.
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